Com milhares de moradores afetados, município destaca resiliência em meio a perdas, reconstruções e novas oportunidades
Trombudo Central ainda tem forte na lembrança, o dia 17 de novembro de 2023. A data que marcou a maior enchente já registrada no município, quando o Rio Trombudo atingiu impressionantes 8,71 metros, superando o histórico episódio de 1983. Foram 244 milímetros de chuva em apenas 48 horas, acumulado que elevou rapidamente o nível do rio e provocou destruição em praticamente todas as regiões da cidade.
A madrugada e a manhã daquela sexta-feira foram marcadas por tensão e incerteza. Os relatos foram de cenas dramáticas: móveis sendo arrastados, eletrodomésticos boiando pelas ruas e famílias desesperadas procurando abrigo. Faltou energia, comunicação e água. Dos 7.274 habitantes do município, conforme o Censo 2022 do IBGE, cerca de 3 mil moradores foram afetados diretamente, sendo quase metade da população trombudense. 90% do comércio local também foi afetado. Apesar da devastação, o município não registrou mortes.
Entre as muitas histórias, a de Jean Carlos de Jesus se destaca pela força e pela superação. Ele perdeu completamente a casa onde vivia com a família. “Nossa casa nunca tinha pegado enchente, era alta. A gente estava despreocupado”, conta. O cenário mudou quando a água chegou aos degraus. “Pensei: vai entrar água, mas não vai derrubar a casa. Jamais passou pela nossa cabeça.” Jean retirou a família às pressas: “Tirei as crianças com água na cintura, carregando no colo. Quando voltei no dia seguinte… nossa casa tinha sido destruída. Uma outra casa bateu nela e arrastou tudo.”

O sentimento de impotência marcou o retorno. “Os outros voltaram para limpar as casas. Nós não tínhamos mais casa para limpar. Só entulho. Minha esposa chorava muito”, lembra. Mesmo assim, ele reagiu: “A primeira coisa que fiz foi comprar um martelo e um pé de cabra. Comecei a desmanchar o que sobrou para tentar aproveitar algo. Era o que dava pra fazer.” Com ajuda de amigos, vizinhos e desconhecidos, Jean reconstruiu o lar. “Hoje nossa casa está de pé de novo, mais alta, mais forte. A gente só tem a agradecer”, disse, emocionado. “A enchente destruiu muito, mas também mostrou o quanto as pessoas podem ser solidárias.”

Outra história marcante é a de Suzana Schelter, que havia acabado de assumir um mercado com o marido. O negócio mal havia completado uma semana quando a chuva chegou. “Estávamos muito felizes. Assumimos o mercado, na quinta-feira já começou a chuva forte. A água entrou, mas conseguimos erguer tudo para o segundo piso”, explicou. Após uma madrugada de limpeza com ajuda de amigos, Suzana acreditava que conseguiria reabrir no dia seguinte.

Mas a enchente voltou com força. “Às seis da manhã, acordamos com notícias de muita chuva. Tentamos tirar o restante, mas foi muito rápido. A água já estava na cintura.” Presos pela cheia, ela e os familiares buscaram abrigo na casa de amigos. Horas depois, veio a notícia devastadora: “Às 15h, disseram que a água já tinha chegado ao segundo piso. Perdemos tudo. Ficamos sem chão.”

Ao retornar ao mercado na manhã seguinte, a cena foi de desolação — mas também de força. “Era uma mistura de tristeza com coragem. A vontade era só abraçar meus filhos.” Com apoio da comunidade, Suzana iniciou uma verdadeira corrida contra o tempo para retomar as atividades. “Uma semana depois reabrimos. Tivemos que nos reinventar. Fomos nos erguendo aos poucos.”

As perdas foram enormes. “Pegou 80 centímetros no segundo piso. Só salvou o que estava mais empilhado. O resto tivemos que jogar fora.” Porém, um ano e meio depois, uma nova oportunidade surgiu: um ponto comercial fora da área de risco. “Hoje temos um supermercado com oito funcionários e uma estrutura muito melhor. Perdemos muito, mas conseguimos recomeçar.”
Dois anos depois, Trombudo Central ainda carrega as marcas da maior tragédia de sua história. Mas também guarda lembranças de solidariedade, resiliência e união, características que permitiram ao município se reerguer. As histórias de Jean, Suzana e tantas outras famílias mostram que, apesar da destruição, a força comunitária foi maior que a enchente.
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